Nº 1

 

        O 1º Arraiá do Zé Torto

  Olha, essa história começa antes do arraiá, um pouco antes.

  Mas me lembro muito bem do ano: 1980. Lembro porque foi o ano em que fiz um estágio de programação musical na rádio Antena1 (meu primeiro emprego) e também porque que tinha que me apresentar ao Serviço militar, algo que me deixava muito preocupado, amedrontado, sei lá. A época não era muito propícia para estar a serviço de um poder que instaurou um outro poder -ditatorial, e não queria isso pra minha vida. Queria continuar trabalhando com musica, programação musical e organizando eventos. A experiência anterior com o ‘poder’ que instaurou o ‘regime’ não foi nada boa. Isso é outra historia.

  Era o início do ano, lembro bem porque os desengonçados sambistas da turma da Ubaldino do Amaral (também conhecida como R.U.A. ou também Família Ubaldinense) ensaiava, ou melhor, fazia barulho com meia duzia de instrumentos e era simplesmente um desastre, servindo apenas para incomodar os moradores.

  Não fiz parte dessa empreitada, era radical e achava que, como roqueiro, não devia curtir samba (idiotice…).

  Estava fazendo outras coisas nessa época, a principal delas com o meu fiel irmão (daqueles que agente escolhe pra vida e não daqueles que a vida nos dá), que chamavam injustamente de Careca (o cara tinha uma vasta cabeleira rasta) e promovíamos festinhas nos play grounds dos prédios do bairro (conheço quase todos) com um outro, digamos, amigo, o Neivaldo, que juntava o equipamento dele com o nosso (tínhamos um bom equipamento, mas poucas caixas de som) e, nas festas, ele fazia as mixagens (por algumas poucas vezes eu também ‘discotequei’, geralmente quando ele não ia), enquanto eu ficava no bar e o Careca ficava encarregado da parte financeira. Cobrávamos, somente aos homens, a entrada e a bebida era cobrada de todos, sem pendura, democraticamente.

  Naquela época haviam bailes de rock. Sim! Aconteciam todos os finais de semana em alguns clubes da cidade. Claro, não havia tantos quanto os de soul/charm. E, num deles, no Mourisco (uma das sedes do Botafogo Futebol e Regatas) eu escutei uma musica que grudou na minha cabeça pior que cocô no sapato. A musica era muito legal, mas eu não sabia quem cantava... Mesmo trabalhando em rádio eu não conseguia descobrir...

  Até que um dia, claro, o mistério foi desfeito.

  Quando preparávamos a programação, tínhamos acesso a uma imensa listagem (datilografada) com trocentas musicas previamente escolhidas ‘a dedo’, quer dizer, que combinassem com o tipo de musica que era o estilo da rádio.

  E a Antena 1 era muito eclética. 2 locutores que acabaram virando lenda no rádio nacional: Eládio Sandoval e Romilson Luís. Tocava um pouco de tudo, com uma ênfase maior ao rock, soft rock. Foi então que numa dessas minhas montagens da programação me deparei com uma musica dos Eagles que estreiava na grade musical da radio: ‘Desperado’, linda. Fiquei curioso... Eagles, nunca tinha dado atenção a essa banda (só conhecia mesmo 'Hotel California'). E fui ao espaço onde ficavam armazenados (em ordem) os discos e pedi para ver o disco da musica ‘Desperado’.

  - É mais um daqueles ‘Greatest Hits!’ Lembro de terem me dito isso…

  Daí a surpresa e finalmente o encontro: A tal musica que grudou na minha cabeça feito cocô no sapato estava no disco! 

  A p... da musica afinal era dos Eagles! ('Take it Easy' era cantada, em sua maior parte, por Glenn Frey e 'Desperado' por Don Henley...).

  Guardei bem a capa e entrei na primeira loja de discos que encontrei (a rádio era na Urca, foi dificil achar), e finalmente comprei.

Olha a capa aí:


  Assim que cheguei em casa, claro, fui pro meu quarto, botei o disco no meu Gradiente (bom pra C…) e tomei um susto.

  Má qui porra era aquela? 3 guitarras e a maioria das musicas é de viola (quer dizer: violão)? Que som era aquele? 

  Afinal, repetindo: dos Eagles só conhecia a porradésima 'Hotel California' com aquela guitarradas extasiantes, hit em todo o mundo, presença obrigatória no repertorio de zilhões de estações de radio mundo afora. E era um som do C..., realmente.

  Fiquei enfeitiçado, confesso. O disco (que não tinha 'Hotel California') começa com 'Take it easy' e termina com 'Desperado'. Pelo meio disso, várias canções maravilhosas, tocadas do jeito que eu gostava. Era o country com umas pitadas de roquenroll. Country Rock, baby. Country Rock.

  Olha a 'Take it easy' aí:


  Daí em diante, não parei de falar no disco. E o Careca acabou entrando na roda também. Todo dia ele ia pra minha casa, daí...

  Ouvíamos musicas, fazíamos planos mirabolantes, porém nada eficientes para ganhar $$$, íamos quase que diariamente a loja de discos do Duarte (que ficava na rua 20 de Abril), ele jantava lá em casa e depois… íamos pra rua!

  Um belo dia Careca apareceu contando uma historia de um filme que ele viu na madrugada – ‘Deliverance' (ou Amargo regresso), era o nome filme e encheu o saco porque queria comprar o disco da trilha sonora e lá no Duarte não tinha. Perturbou o dia inteiro, até eu concordar em ir na Moto Discos da rua Uruguaiana (era uma grande rede que vendia discos e cassetes, tinha muitas lojas em vários bairros), onde tinha duas lojas, porque ele queria porque queria comprar.

  Achamos logo na primeira e corremos pra casa, mas não deu…

  Meu irmão estava ouvindo John Lennon e isso levava horas…

  Nosso interesse por country music ia crescendo (embora eu já tivesse sido ‘introduzido’ ao ritmo em alguns discos de rock, sempre tinha um countryzinho meio roquenrol...). Nossa busca agora era exclusivamente por discos de Country. Na rádio, consegui incluir algumas musicas na programação (lembro de ‘I Love a Rainy Night’, do Eddie Rabbit e de ‘Queen of Hearts’, da Juice Newton e ‘It’s só Easy’, da Linda Ronstadt acompanhada pelos Eagles). Em pouco tempo consegui fazer uma bela coleção com uma quantidade razoável de discos. O Careca não comprava porque não tinha um equipamento de som para ouvir.

  Falar em Careca, olha a capa do tal ‘Deliverance’


  Olha o 'Deliverance' aí (com direito a cenas do filme ‘Amargo regresso’, Burt Reynolds, yeah...):


  Então… numa dessas procuras por musica country demos de cara com um disco do Poco, também greatest hits, duplo (custava muito $$$ porque era importado) que o Duarte nos garantia ser um puta disco, segundo ele: ‘Uma aula de música!’, que na verdade não era isso tudo, mas era muito bom. A segunda faixa do lado A do disco (pelamordedeus!) nos deixou completamente desconcertados: ‘Fools Gold’. O que que era aquilo? É uma musica instrumental de pouco mais de 5 minutos que era um autentico soco no estomago.

Olha a capa do disco aí


  A musica era (ainda é!) muito desconcertante, uma explosão de banjos e uma marcação rapidíssima da bateria, desequilibradora. Simplesmente descaralhante.

  Olha o vídeo


  No início, tiros e mais tiros e em seguida a explosão fantástica dos banjos, da bateria, da slide guitar, uma coisa muito louca…

  Versão exclusivíssima daquele álbum, que era importado, e não havia nem na versão original, no álbum 'Crazy Eyes'. Era uma coisa única. Exclusiva.

  Então…

  A primeira ideia mirabolante: Vamos fazer uma festa de country!

  Neivaldo vetou. Ninguém ouvia country, é prejuízo certo.

  Aceitamos a argumentação dele. Ele estava certo, pensando bem.

  E continuamos com a nossa vidinha, nossa rotina: Trabalhava de segunda a sexta de meio dia até as 4, de manhã estudava na Mabe e sempre lá pelas 5 Careca chegava na minha casa e ficávamos ouvindo ‘um som’ (incluía, além do country, muito rock progressivo, Pink Floyd, Led Zeppelin e… Nazareth!)

  E então...

  Como o tal do Bloco da Ubaldino naufragou, a organizadora do bloco, a Sandra, moradora do nº 90 da rua resolveu tentar uma nova empreitada: Uma festa junina de rua.

  Uma reunião com algumas pessoas (moradores e comerciantes da Ubaldino) foi organizada e eu fui convidado a participar. Muita gente boa esteve presente: Além da Sandra, o Jorge Arena, a Tânia, o sr Isaac e o Tuninho (do bar).

  Depois de acertados os ponteiros a coisa ficou assim definida: a Sandra e o Jorge cuidariam da parte burocrática, seu Isaac e o Tuninho ficariam encarregados da venda de barracas, a Tânia das quadrilhas (infantil e adultos) e eu (Careca & Neivaldo a reboque) da programação musical. Propus, de início, só musicas brasileiras, nordestinas, com muito Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho e por aí vai. Sugestão aceita.

  Depois dessa primeira reunião, com a chamada ‘diretoria’ (sic), foi feita uma nova convocação, dessa vez aos moradores e comerciantes da rua para uma reunião no play ground do prédio em que eu morava, o 70 (naquela época 90% das lojas da Ubaldino do Amaral estavam abertas, funcionando. Tinha até uma livraria…), onde foi exposta a ideia da realização de uma festa junina que foi muito bem aceita por todos e logo começaram os preparativos. Sandra e Jorge começaram a trabalhar para conseguir as autorizações necessárias (prefeitura, polícia, bombeiros, detran e o escambau) e eu fiquei encarregado de fazer a divulgação da festa.

  Outro grande (e desaparecido) amigo, Fernando Catarina fez a arte do panfleto. Uma coisa simples: Um caipirazinho devidamente ‘indumentado’, bem simples e legal.

  A primeira rodada de panfletagem (na verdade, apenas colamos cartazes nas paredes da Ubaldino do Amaral e ruas adjacentes) dava conta da realização da festa, das datas e fazia a convocação dos moradores para participarem e também havia o convite para a participação nas duas quadrilhas que iriam ser montadas e a data do inicio dos trabalhos, com informações sobre a ‘inscrição’ dos participantes da quadrilha e dos barraqueiros.

  Lembro que essa primeira aparição do Zé Torto (a tal reunião com moradores e comerciantes) foi num dia de semana, á noite, pois os ensaios teriam inicio no final de semana seguinte a essa reunião.

  E pronto. No sábado seguinte a reunião, á tarde, levei uma vitrolinha (que era razoável, mas dava pro gasto) e alguns discos (de mpb) e ficamos eu, Tânia e Sandra na esquina da Ubaldino do Amaral com a Carlos de Carvalho ‘de plantão’ a espera da inscrição das pessoas interessadas ou em dançar quadrilha ou colocar uma barraca na festa.

  A garotada do prédio desceu em peso e conseguimos montar rapidamente um embrião do que seria a quadrilha infantil do Arraiá do Zé Torto. Os adultos nem tanto.

  Tânia marcou o inicio dos ensaios para o dia seguinte e então o nosso amigo Zé Torto começou a tomar forma.

  Nesse mesmo dia, enquanto Tânia comandava as coisas na rua, eu (e Careca) iniciávamos uma nova rodada de panfletagem, dessa vez convocando a ‘galera’ pra participar da quadrilha dos adultos.

  Depois da panfletagem eu e Careca voltamos para a rua e lá já acontecia a primeira confusão: Tânia não levava o menor jeito pra coisa e não tinha a menor paciência com a molecada.

  No sufoco, Sandra interferiu, não deu certo. Depois foi o Jorge, nada feito. Então olharam pra mim. E lá fui eu.

  Sempre fui, segundo o Careca, meio ‘porra louca’ e acabei me entendendo com a molecada (garotada entre 9 a 13 anos) e acabei ficando encarregado de ensaiar as quadrilhas, com a Tânia ‘deslocada’ para ficar com a direção de rua (organizar tudo para podermos tocar o projeto). Mais poder implica em maior responsabilidade, me disse Careca (isso lembra alguma coisa?)

  Esse ensaio, o primeiro, não foi lá essas coisas. Muita confusão. Além de eu não saber conduzir uma quadrilha (não tinha a relação/explicação dos ‘passos’ a serem executados), também havia a história de quem vai dançar com quem, quem seriam os noivos, quem seria o padre, quem seria o delegado, etc. Mas a duras penas conseguimos ‘ensaiar’…

  Haviam poucos pares ainda. Então, muito mais que ensaiar os passos, resolvi ficar na base da brincadeira com a molecada conversando com eles para chamarem seus amigos para virem dançar, ia ser legal, engraçado e tal. Creio que consegui empolgar a molecada, pois no final de semana seguinte já podia contar com um grupo considerável de ‘dançarinos’. Mas para a de adultos, nenhuma evolução. Só tinha uns três ou quatro inscritos.

  Daí resolvi apelar.

  Eu era um cara muito conhecido no Centro. Era bem vindo em um monte de ruas (naquela época havia rixas entre as ruas e o pau comia) e resolvi usar isso (a minha ‘popularidade’) em prol da montagem da quadrilha.

  Então comecei a falar com algumas pessoas de várias ruas, convidando-as para dançar a quadrilha e blá blá blá.

  Confesso que foi meio complicado. A musica (aquela tradicional de São João) não empolgava os convidados e aquilo me desanimava bastante.

  Com a molecada não. Tudo corria bem, os ensaios iam tomando um rumo, a quadrilha ia encorpando, eles iam aprendendo os passos.

  Então a mirabolante ideia de fazer uma festa country voltou a tona. Não lembro de quem foi a ideia, se minha ou do Careca, mas decidimos fazer uma programação totalmente country para toda a festa. Isso dava umas cento e tantas musicas por noite. E ‘Fools Gold’ com todos aqueles tiros foi a musica escolhida para ser a musica da quadrilha e ‘Dueling Banjos’ seria a primeira musica, a musica que abriria a festa. Foi brilhante. Ainda tinha o Neivaldo que, pra variar, achou loucura fazer uma festa junina country, ninguém conhecia country e resolveu não participar. Mas cederia as caixas de som e o 'estudio' para a gravação da 'trilha sonora'. Era o que precisávamos dele.

  Levei a ideia pra os organizadores e todos torceram o nariz. Que porra é essa? Musica country? Bati o pé: Ou era assim ou não ia ter a minha presença na organização da festa e isso implicava em não ter ninguém para ensaiar e, nos dias de festa, puxar as quadrilhas e também a sonorização gratuita da festa que iríamos fazer. Tcheke mate.

  Ideia maluca, irresponsável, mas decisiva.

  Após o ‘aval’ da comissão organizadora, eu e Careca intensificamos a busca por dançarinos para a quadrilha de adultos. O primeiro passo foi nova panfletagem, dessa vez informando que a festa junina seria uma festa junina country. Algo novo e completamente diferente para os padrões daquela época.

  Deu certo, pois despertou a curiosidade da galerinha da época.

  Logo no fim de semana a seguir a panfletagem, nos ensaios da quadrilha infantil (que seria realizada de forma tradicional) apareceram algumas pessoas interessadas em saber do que se tratava a tal festa junina country.

  Não foram muitos os que apareceram, mas mesmo assim foi o primeiro passo para a formação da quadrilha adulta do Zé Torto.

  Mostrei-lhes a musica que seria usada para a apresentação (‘Fools gold’!) e ninguém entendeu nada. A reação foi: Atônitos e depois empolgados. Pedi-lhes que me ajudassem na formação da quadrilha, que espalhassem a noticia, que arregimentassem novos integrantes para dançar.

  O tempo ia passando e a festa se aproximando…

  No fim de semana seguinte após a primeira audição da musica da quadrilha de adultos por alguns, a coisa já começou a tomar corpo. Tínhamos conseguido reunir um pequeno grupo de ‘voluntários’ que já dava para ‘dar os primeiros passos…’.

  Poderia dizer aqui o nome de alguns dos que estavam no primeiro ensaio, portanto, ‘fundadores da quadrilha country do Zé Torto’, mas não o farei por uma razão muito simples: Não tenho uma memória assim tão privilegiada a ponto de me lembrar de todos que participaram da empreitada.

  Voltando ao ensaio, o dito cujo chamou a atenção pela espontaneidade daqueles que lá estavam. A musica rápida e envolvente remetia os ‘dançarinos’ a um êxtase que definiria como cômico. Uma verdadeira palhaçada foi o primeiro ensaio. Muito engraçado. Mas coordenado. Por incrível que pareça, o pessoal seguia os meus passos e dentro dessa organização a anarquia propiciava momentos de muitas gargalhadas. Por incrível que possa parecer e, segundo relatos que me foram dados, esse foi o único ensaio em que eu não dei ‘ataque de pelanca’… (que, aliás, acabou virando uma das marcas registradas da festa junina e até inspirou a criação de um passo novo, ‘Porrada no salão em cima de fulano’, que poderia ser executado a qualquer momento, era só eu me emputecer com alguém). Foi, no fim das contas, um fim de semana proveitoso.

  O tempo ia passando e a festa cada vez mais próxima…

  No fim de semana seguinte, a 1 mês da festa, a coisa ficou louca. Os maiores malucos do Centro da Cidade apresentaram-se para dançar a quadrilha. Muita gente, de varias ruas. Ali não tinha rivalidade. Nem vaidade. Cada qual era esquisito ao seu jeito e tudo era um somatório dessa esquisitice. Conseguimos montar uma quadrilha com mais de 20 pares. Imagina: pelo menos uns 40 malucos + eu.

  As crianças estavam mais ou menos, iam dançar a musica junina tradicional e necessitavam de mais ensaios para um maior entrosamento. Os adultos estavam muito atrasados, necessitavam de muitos ensaios.

  Sandra interveio, reunindo as quadrilhas e informando que os ensaios seriam diários, faltava pouco tempo. Concordei, todos concordamos.

  E então começaram os ensaios diários. Crianças primeiro, adultos depois. Os ensaios sempre acabavam depois das 10.

  Aí foi outra história…

  As quadrilhas foram engrenando, as notícias iam correndo e começou a aparecer gente para assistir aos ensaios (O Tuninho do bar andava numa felicidade só… até liberou a coca cola pra mim…).

  Ficou muito claro que (viva os loucos!) pela quantidade de excêntricos participantes da quadrilha, cada ensaio era um 'espetáculo' diferente. Era sempre muito engraçado. Eu me aborrecia feito um doido, dava ataques mas conseguia (não sei porque cargas d’agua) conduzir aquele bando de postulantes a baderneiros. Eles seguiam o meu ‘comando’, incrível! Era circense, sinceramente.

  Os ensaios dos adultos levavam em média 1 hora. A música ainda não estava mixada e Careca se desdobrava no equipamento, com maior cuidado pois só tínhamos aquele disco. A musica acabava ele botava no começo. Coitado. De vez em quando eu até pegava coca cola pra ele no bar do Tuninho. Ele merecia.

  No Centro naquela época haviam as festas da André Cavalcanti, Gomes Freire, Rua de Santana e Bairro de Fátima.

  A primeira seria na Rua de Santana, depois seria na André Cavalcanti, depois Bairro de Fátima (a mais tradicional. Não fazem mais.), depois seríamos nós e fechando a Gomes Freire.

  Os nossos ensaios continuavam. E cada vez mais atraíam mais gente. Diz a lenda, não sei, apenas estou repetindo, que os ensaios do Zé Torto (ninguém falava ‘Festa da Ubaldino) acabaram por esvaziar bastante as festas das outra ruas, diz a lenda…

  Mas era muito engraçado de assistir. Cada figura…

  Os meus ‘ataques de pelanca’ também se encaixavam nessa atmosfera doida que conseguiu-se criar em torno da festa junina. Digo isso porque em conjunto com os ensaios, passávamos a todos a informação de que toda a festa seria embalada por musica country. Cerca de 130 musicas por noite e cada noite com uma programação diferente…. 3 noites, 390 musicas.

  Putzgrila!

  Pois é, também havia essa questão: As musicas. Lembram-se que, lá atrás, eu disse que tinha montado um acervo bem razoável de discos country? Pois é, esse ‘razoável’ passou a considerável, eu tinha pra mais de 100 discos de musica country. Muita coisa. E ainda algumas faixas de discos de roquenrou que serviam perfeitamente ao espírito da festa.

  'Hot Dog', do Led Zeppelin era uma delas. Olha o clipe: 


  Também tinha uma do Slade, 'Pack up your truble'. Olha o clipe:



  Muito trabalho a fazer, muita musica pra escolher. Também haviam musicas brasileiras.


  A lenda de Bob Nelson, com o tremendão Erasmo Carlos:


Mesmo de brincadeira,  do 14 Bis:

                                           

Bem te vi, do Renato Terra:



  Fiz a programação da festa junina toda sozinho. Fiz porque sabia que Careca não tinha ‘saco’ pra isso. E, em homenagem a ele antecipadamente decidi que ‘Dueling Banjos’ seria a primeira e a ultima musica da festa.

  Para fazer a programação usei a mesma metodologia usada na radio. Fiz uma listona (manuscrita) com trocentas musicas para depois selecionar o numero de musicas por dia. Por precaução fiz os playlists com 130 musicas. Sei lá, vai que acontece algo. Sei disso porque dia desses mexendo nos meus discos achei tudo enfiado num disco do Creedence Clearwater Revival, o Mardi Grass.

  Lembro que levei alguns dias para finalizar a programação. Estava estudando, fazendo estágio e enlouquecendo com a festa... fui fazendo no tempo que sobrava


  Resumindo:

  'Dueling banjos' abriu no primeiro dia (uma sexta feira, as 18hs) e fechou no ultimo dia (domingo/segunda, 01 e 15). em tese. Os horários quase bateram.

  E, depois de feita a programação, foi a vez das gravações. Neivaldo não quis participar, Careca não sabia mixar. Sobrou pra mim. Neivaldo deixou que usássemos o seu micro pequeno demais e quente ‘estúdio’ (aquilo era tudo, menos estúdio, sinceramente.) que de bom mesmo só tinha a acústica.

  Ficamos tranquilos e deixamos essa tarefa por ultimo, pensávamos em fazer esse trabalho aos poucos na semana em que aconteceria a festa. Só que não. Por conta da grande movimentação gerada pela realização da festa, tinha muita coisa para fazer, coisas do tipo: Enfeitar a rua, iluminar a rua, ajudar a montar as barracas e montes de outras coisas que iam aparecendo e íamos resolvendo. Ou, pelo menos, tentando resolver. Só pudemos fazer esse trabalho 2 dias antes do início da festa (Bom, se a festa começava numa sexta feira, lógico é que era uma quarta feira, dã…)

  E assim foi. Com nossos pais informados sobre a nossa ausência (seriam pelo menos 20 horas de gravação), logo após o ensaio, eu e Careca viemos pegar os discos (e a programação) na minha casa e fomos pra casa do Neivaldo.

  Resumindo em alguns segundos o que levou quase 24 horas, a musica principal -a musica da quadrilha, que tem a duração de quase 5 minutos foi transformada em um tema de hora e meia de duração com uma mixagem que transformou a música em algo ainda mais eletrizante do que já era. As restantes musicas foram gravadas de acordo com a programação elaborada. Começamos tarde da noite da quarta feira e só terminamos no finalzinho do dia seguinte. Saímos da casa do Neivaldo entorpecidos e irritados. Muito irritados. Em verdade a vontade mútua de ambos era a de matar o outro. Muito cansativo, muito mesmo.

  Gravamos tudo em 4 fitas de gravador de rolo. Um Sony, novinho e moderníssimo que eu tinha comprado especialmente para gravar a ‘trilha sonora’ da festa. Tambem usamos um segundo gravador de rolo (um Grundig velho que habitualmente usávamos nas festinhas). E mais um, outro Grundig (do Neivaldo) que só usamos para gravar a musica da quadrilha porque utilizamos os outros dois para E S T I C A R   a musica. Usamos os dois gravadores para fazer a mixagem e gravar no terceiro. 2 amplificadores, 2 pick ups Gradiente, 6 cornetas (um esporro do cacete!) e o mixer (acho que era um Quasar).

  Cansados, no maior bode fomos pra casa tomar um banho, comer alguma coisa e ir pra rua. Era véspera da festa, dia de virar a noite (+ uma vez) preparando a rua para o evento. Não aguentei. Fiquei até uma determinada hora, depois comecei a atrapalhar mais do que ajudar. Tinha que dormir. Careca nem deu as caras.

  Algumas musicas da festa

  Steamer lane breakdown, dos Doobie Brothers:


  Bonanza!: 


  Deep in the heart of Texas: 


  E, enfim!, o dia amanheceu e finalmente havia chegado o dia.  

  A atmosfera de toda a rua era de muita expectativa. Esperava-se uma grande afluência de publico (os ensaios já demonstravam isso) para a festa. O comércio estava aberto, afinal era uma sexta feira, dia de trabalho. E ainda havia trabalho a ser feito para o arraiá. O som. Instalar o som e distribuir 12 caixas de som por toda a rua.

  Perdão: Putaquipariu, que trabalheira!

  Colocamos 8 caixas de som por toda a extensão da rua (maior dificuldade), 4 de cada lado e centralizamos as outras 4 na área central da festa , onde aconteceriam as danças. O restante do equipamento foi colocado na marquise do Bar do Tuninho. Depois de testarmos ‘como ficou’ (advinha: Botamos a pauleira 'Hair of the dog' do Nazareth), finalmente demos por encerrados todos os preparativos da festa. Agora era só ver no que ia dar. Terminamos coisa uma ou duas horas antes do início. Só deu tempo de ir em casa pra tomar um banho, comer alguma coisa para depois embarcar no trem doido chamado Arraiá do Zé Torto. Por precaução, levei Careca pra minha casa onde ele se preparou para a maratona, afinal ele era o responsavel pelo som.

  Tudo (aparentemente) pronto, estava chegando o momento de dar inicio a festa. Tudo estava marcado para as 18hs: Música e Barraquinhas. Muita ansiedade e expectativa no ar. Não vou dizer aqui que tanto eu quanto o Careca tínhamos consciência do que estava para ocorrer porque não tínhamos. O inusitado bizarro exclusivismo.

  Só que não.

  Sandra e Jorge, os dois organizadores principais e que teriam a incumbência de ‘declarar aberta a festa!’ não estavam lá. Ambos tinham ido a delegacia (5ª DP) 'cobrar' o acompanhamento policial na festa, conforme solicitação oficial protocolada e atendida. Seriam 4 políciais que se encarregariam da segurança na festa.

  Nos reunimos eu,Tânia, Seu Isaac, Tuninho e Careca.

  Advinha…

  Meteram uma porra de um chapéu todo esfarrapado na minha cabeça (ficou esquisito, meu cabelo era bem cumprido e não ‘encaixava direito’) e o Careca (que participou da reunião de cima da marquise) jogou o microfone lá de cima na minha mão e, claro, não consegui pegar, caiu no chão e deu uma baita microfonia que ecoou por toda a rua que, por sinal, já estava ‘meio cheia’, e isso foi o suficiente para atrair a atenção de todos para o local e aí lá estava eu, muito sem graça, com o bicho na mão, anunciei o inicio da festa.

  E tudo começou. 

  A rua, já muito movimentada, o pessoal (amigos e da quadrilha) pra lá e pra cá, estava bonito. Sandra e Jorge já haviam voltado com os tais guardas e lembro de subirmos na marquise, eu e a Sandra (não sem antes o Careca sacanear a Sandra dizendo que se ela subisse a marquise ia cair, imagina…) e ficarmos olhando de lá, admirados com a quantidade de gente logo no começo da festa. Putz… acho que nunca vou conseguir descrever a sensação que tive. Viajei legal.

  Mas, tínhamos muito a fazer, não dava para ficar ali só olhando. 

  Era regra comum nas festas juninas daquela época que os organizadores deveriam sempre estar á vista, circulando pela festa, disponíveis a qualquer solicitação. E no Zé Torto não era diferente.

  Da minha parte, a prioridade era ver se todas as crianças da quadrilha estavam na festa, se não havia nenhum problema de ultima hora para resolver. E tinha.

  Frederico, o nosso tímido e relutante noivo, de tanto nervosismo acabou ‘indo pro brejo’, quer dizer, pro banheiro e por lá ficou.

  O noivo!

  Fiquei sabendo pela mãe dele, que veio com outras mães, para me acalmar, caso eu entrasse em parafuso e desse um ataque de pelanca...

  Nem pensei duas vezes, peguei o engraçadíssimo padre, o Marcelinho (que morava no morro da Mineira) e o ‘promovi’ a noivo e acabei sendo salvo por uma integrante da quadrilha dos adultos (Delminha) que se ofereceu para ser o padre e dançar com o ex-par do padre, que ficou ‘a ver navios’ após a ‘promoção’ do Marcelinho.

  Eles (as crianças) sabiam que eu não puxaria a quadrilha do chão. Seria da marquise. Era com eles. Uma prova de confiança (e a absoluta certeza que a molecada estava pronta).

  As 19 hs começou a busca pela molecada para coloca-los em formação, Sandra anunciou pelo microfone para os integrantes da quadrilha de crianças me procurarem e, confesso, não foi difícil reunir a molecada.

  Já havia conversado com Marcelinho e seu par, eles já estavam a par da solução e na ‘concentração’ anunciei as mudanças ao resto do grupo.

  Tudo pronto, bastava eu subir na marquise e anunciar a entrada da quadrilha.

  E eu subi.

  Sandra já havia se posicionado na frente da molecada, que lá da marquise eu via, estavam eufóricos, alegres, todos muito felizes. Ela só aguardava o meu sinal. E o sinal foi dado. Agora era pra valer.


  Olha a musica da quadrilha:


  Eles foram magistrais, encantadores, emocionaram e arrancaram gargalhadas e muitos aplausos ao fim da apresentação.

  Eu os esperei na ‘concentração’ muito emocionado e chorei abraçado a eles (sempre fui chorão), muito sensibilizado com a performance, com a presença da Padre (sim ‘dá’. Foi Delminha, da quadrilha dos adultos, que assumiu o posto de padre).

  Muito bonito ver a molecada, muito bonito mesmo.

  Muito bonito também ver que as pessoas que assistiram (a rua estava muito cheia) a apresentação realmente gostaram. ‘Tapinhas nas costas’ vindo de não sei onde. Muito legal.

  Após a apresentação da garotada a ideia era dar um espaço de uma hora e entrar com a quadrilha do Zé Torto.

  Era apenas uma ideia. Uma lição a ser aprendida para os anos vindouros… e foi.

  Cerca de 30 minutos após o término da quadrilha infantil, foi anunciado (pelo Careca) que daí a uma hora seria a apresentação dos adultos.

  Começou a busca pelos malucos.

  Não deu para entrar no horário programado. Simplesmente não deu.

  Eu andava feito doido pela festa pegando pelo braço os integrantes da quadrilha e levando para a ‘concentração’, tarefa inglória pois quando levava um percebia que o que eu tinha levado antes já tinha saído…

  Não conseguia reunir o pessoal.

  O help enfim veio. Todos os organizadores ajudaram a reunir o pessoal, exceto Careca, sempre na marquise.

  Muito mais de uma hora depois do horário programado, conseguimos.

  Qui bando… todos maravilhosamente (e etilicamente, inclusive eu e também o meu brother Careca, encarregado de providenciar o nosso álcool. E era batida de coco, do Sokana, quando era no Alto da Boa Vista. 3 garrafas, 1 pra cada dia. Fora a cerveja), voltando para não me perder… todos maravilhosamente (e etilicamente) inspirados, era chegada a hora, finalmente.

  Isso não vai dar certo, lembro de ter pensado isso indo pra marquise.

  A entrada não foi anunciada (nunca foi, até 1984) o prenuncio do ‘trem doido’ foi a gravação dos tiros que haviam na gravação original. Cerca de dois ou três minutos (não lembro) mixados. Muito doido. Doido mesmo.

  Da marquise eu via, impressionado, a velocidade imprimida pelos casais, enquanto berrava no microfone para o publico ‘abrir espaço’.

  Impressionou. Deviam ser uns 30 casais.

  Eu acabei também por me deixar levar pelo momento e não parava de falar (chapado…) animando a quadrilha.

  A apresentação dos casais foi muito engraçada

  O casamento não ficou atrás…

  O delegado. Ai o delegado: O Antonio Alfredo de Oliveira Lima Junior, ou: Cachaça! (O cara nem bebia cachaça, batida... só cerveja)

  Dançávamos os mesmos passos da quadrilha tradicional, eliminando alguma coisa e adicionando outras e deu certo.

  A dosagem perfeita entre a velocidade e estabilidade dos passos era… Dú K, pode crer.

  A atuação de cada integrante, em solo, ou em companhia do par, a improvisação (com o risco de levar uma penalização chamada ‘Porrada no Salão encima do/da…’), a comicidade e interação com o publico foram muito legais. Lembranças fortes que ficavam em cada um (a primeira vez a gente não esquece…).

  Para fechar: Quase duas horas de apresentação e, ao final dela, um ‘open bar’ pros dançarinos oferecido pelo emocionado Tuninho. Rá!

  A noticia da apresentação correu o bairro e, nos dias seguintes – sábado e domingo, havia muito mais gente na festa e nada foi igual como da primeira vez, aliás, nunca foi feita uma apresentação igual a outra. Não tinha como. Dependia muito do momento.

  Foi diferente. Sempre. Mas na minha opinião a apresentação do ultimo dia foi a mais emotiva. A maioria dos caras, eu incluso, iria se apresentar no serviço militar e, lógico, alguns não estariam disponíveis para o ano seguinte.

  Foi diferente porque todos (Organizadores, quadrilhas, moradores e comerciantes) pareciam ter compreendido que aquilo, aquele evento, aquele momento foi algo muito especial. A rua estava viva, talvez vivendo a sua plenitude, enfim, não sei transformar em palavras aquele sentimento que era vivido por todos. Felicidade/cansaço/ressaca/embriaguez/72 horas sem dormir… hum.

  Mas valeu a pena. Valeu a pena porque havia sido dado o primeiro passo. O Arraiá do Zé Torto veio pra ficar!, diziam alguns entorpecidos e eufóricos participantes do evento. Mas as coisas não funcionariam, no futuro, do jeito que todos gostariam. Por alguns anos – 5, até funcionou, mas para mim 1984 foi a ultima participação.

  Depois, virou palco de politicagem barata e the dream is over...  

  E esse foi o 1º Arraiá do Zé Torto. Outros 4 alucinantes aconteceram (até 1984). A festa foi realizada, com falhas, até 1990.

  Talvez ‘dia desses’ eu retome o tema…


                José Augusto Gonçalves

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